quinta-feira, 10 de maio de 2012

Caeiro visto por Campos II


Olá!
Em continuação ao post anterior, hoje trouxemos mais trecho do relato que o poeta heterônimo Álvaro de Campos faz de seu mestre Aberto Caeiro.

            [...] Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que dia num dos poemas de O guardador de Rebanhos, que não sei quem lhe tinha chamado em tempos “poetas materialista”. Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse, contudo, que não era absurda de toda atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:
            “Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma.”
            Fiquei atônito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.
            “Mas isso a que V. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?”
            E eu, desnorteado. “Mas V. não concebe o espaço como infinito? Você não pode conceber o espaço como infinito?”.
            “Não concebo nada como infinito. Como é que eu posso conceber qualquer coisa como infinito?”
            “Homem”, disse eu, “suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba...”
            “Por quê?” disse o meu mestre Caeiro.
            Fiquei num terremoto mental. “Suponha que acaba”, gritei. “O que há depois?”
            “Se acaba, depois não há nada”, respondeu.
            Este gênero de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irrespondível, atou-me o cérebro durante uns momentos.
            “Mas V. concebe isso?” deixei cair por fim.
            “Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe.             Existir é haver outra coisa qualquer e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser outra coisa que está mais adiante?”
            Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo.
            “Olhe, Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número – 34, por exemplo. Para além dele temos 35, 36, 37, 38, e assim sem poder parar. Não há número grande que não haja um número maior...”
            “Mas isso são só números”, protestou o meu mestre Caeiro.
            E depois acrescentou, olhando-me com uma formidável infância:
            “O que é o 34 na realidade?”

Como pode-se perceber, estes relatos nos revelam muito sobre as gênese dos heterônimos e suas características mais profundas. Espero que tenham gostado!!

Referências:
PESSOA, F. Caracterização individual dos heterônimos. In: Obras em Prosa. 1° Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.

Abs
Thayna.

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