Olá!
Em continuação ao post
anterior, hoje trouxemos mais trecho do relato que o poeta heterônimo Álvaro de
Campos faz de seu mestre Aberto Caeiro.
[...]
Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que dia num dos poemas de O guardador de Rebanhos, que não sei
quem lhe tinha chamado em tempos “poetas materialista”. Sem achar a frase
justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa,
disse, contudo, que não era absurda de toda atribuição. E expliquei-lhe, mais
ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção
de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:
“Mas
isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e
portanto sem desculpa nenhuma.”
Fiquei
atônito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina
dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.
“Mas
isso a que V. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente
materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que
eles viram isso no espaço?”
E
eu, desnorteado. “Mas V. não concebe o espaço como infinito? Você não pode
conceber o espaço como infinito?”.
“Não
concebo nada como infinito. Como é que eu posso conceber qualquer coisa como infinito?”
“Homem”,
disse eu, “suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além
desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba...”
“Por
quê?” disse o meu mestre Caeiro.
Fiquei
num terremoto mental. “Suponha que acaba”, gritei. “O que há depois?”
“Se
acaba, depois não há nada”, respondeu.
Este
gênero de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto
irrespondível, atou-me o cérebro durante uns momentos.
“Mas
V. concebe isso?” deixei cair por fim.
“Se
concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe.
Existir é haver outra coisa
qualquer e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma
coisa é uma coisa, e não está sempre a ser outra coisa que está mais adiante?”
Nessa
altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com
outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir
legítimo.
“Olhe,
Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer
número – 34, por exemplo. Para além dele temos 35, 36, 37, 38, e assim sem
poder parar. Não há número grande que não haja um número maior...”
“Mas
isso são só números”, protestou o meu mestre Caeiro.
E
depois acrescentou, olhando-me com uma formidável infância:
“O
que é o 34 na realidade?”
Como pode-se perceber, estes relatos nos revelam
muito sobre as gênese dos heterônimos e suas características mais profundas.
Espero que tenham gostado!!
Referências:
PESSOA, F. Caracterização
individual dos heterônimos. In: Obras
em Prosa. 1° Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.
Abs
Thayna.

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