Trago hoje mais poemas de Pessoa. Em Autopsicografia temos o "fingimento da sinceridade poética". "Fingimento", pois mesmo quando o poeta sentiu a emoção que o motivou a escrever, a expressão não é a mesma, logo sentir é uma coisa, exprimir é outra.
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é a dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entender a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa é um poeta extremamente intelectualizado e anti-sentimental. Em seus poemas ele analisa as emoções de forma profunda e não somente em sua simples expressão. No poema a seguir, que trata de música, ele faz muito mais do que apenas transmitir emoções, ele realiza um exame penetrante e perturbador sobre a emoção causada pela audição de uma música qualquer.
Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
Bibliografia:
Rodrigues, M. Literatura Portuguesa. 2ª Ed. São Paulo: Ática, 1997.
Abs, Karen.
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