quinta-feira, 10 de maio de 2012

Caeiro visto por Campos


Oi, turma!
            Trouxe hoje mais trecho de “interação” entre os heterônimos, desta vez Álvaro de Campos relatando uma conversa que teve com Caeiro:

            [...] Referindo-me, uma vez, ao conceito direto das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:
A primrose by river’s brim
A yellow primrose was to him,
And it was nothing more.


            E traduzi (omitindo a tradução exata de “primrose”, pois não sei nomes de flores nem de plantas): “Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada.”
            O mestre Caeiro riu. “Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela”.
            Mas, de repente, pensou.
            “Há uma diferença”, acrescentou. “Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas,  ou como aquela flor amarela só”.
            E depois disse:
            “O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exatamente os  olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes.”
            Muito legal, não é? Digam-nos o que acharam!
Bibliografia consultada:
PESSOA, F. Caracterização individual dos heterônimos. In: Obras em Prosa. 1° Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.

Bjs
Thayna.

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