sábado, 28 de abril de 2012

Álvaro de Campos em controvérsia com Ricardo Reis


Oi, pessoal!!
            Encontrei um texto interessantíssimo que mostra um “debate” entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos acerca do assunto “O que é poesia?”.
            Não sei a vocês, mas me encanta a maneira com que Fernando Pessoa trata os heterônimos! Se não soubesse, ao ler trechos como este, quem realmente os escreveu, nunca duvidaria de que se tratam de pessoas totalmente diferentes...
             Vamos conferir?

[IDEIA, EMOÇÃO E RITMO]
ÁLVARO DE CAMPOS:
A POESIA é aquela forma de prosa em que o ritmo é artificial. Este artifício, que insiste em criar pausas especiais e antinaturais diversas das que a pontuação define, embora às vezes coincidentes com elas, é dado pela escrita do texto em linhas separadas, chamadas versos, preferivelmente começadas por maiúsculas, para indicar que são como que períodos absurdos, pronunciados separadamente. Criam-se, por este processo, dois tipos de sugestões que não existem na prosa – uma sugestão rítmica, de cada verso por si mesmo, como pessoa independente, e uma sugestão acentual, que incide sobre a última palavra do verso, onde se pausa artificialmente, ou sobre a única palavra se há uma só, que assim fica em isolamento que não é itálico.
Mas pergunta-se: por que há de haver ritmo artificial? Responde-se: por que a emoção intensa não cabe na palavra: tem que baixar ao grito ou subir ao canto. E como dizer é falar, e se não pode gritar falando, tem que se cantar falando, e cantar falando é meter a música na fala; e, como a música é estranha à fala, mete-se [?] a música na fala dispondo as palavras de modo que contenham uma música que não esteja nelas, que seja pois artificial em relação à elas. É isto a poesia: cantar sem música. Por isso os grandes poetas líricos, no grande sentido do adjetivo “lírico”, não são musicáveis. Como o serão, se não são musicais?
RICARDO REIS:
            Diz Campos que a poesia é uma prosa em que o ritmo é artificial. Considera a poesia como uma prosa que envolve música, donde o artifício. Eu, porém, antes diria que a poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com palavras. Considerai que será o fazerdes música com ideias, em vez de com emoções. Com emoções fareis só música. Com emoções caminham para as ideias, que se agregam ideias para se definir, fareis o canto. Com ideias só, contendo tão-somente [?] o que de emoções há necessariamente em todas as ideias, fareis poesia. E assim o canto é a forma primitiva da poesia, porque é o caminho para ela [var.: não é a primeira forma da poesia, senão o caminho para ela].
Quanto mais fria a poesia, mais verdadeira. A emoção não deve entrar na poesia senão como elemento dispositivo do ritmo, que é a sobrevivência longínqua da música no verso. E esse ritmo, quando é perfeito, deve antes surgir da ideia que da palavra. Uma ideia perfeitamente concebida é rítmica em si mesma; as palavras em que perfeitamente se diga não têm poder para a apoucar. Podem ser duras e frias: não pesa – são as únicas e por isso as melhores. E, sendo as melhores, são as mais belas.
            De nada serve o simples ritmo das palavras se não contêm ideias. Não há nomes belos, senão pela evocação que os torna nomes. Embalar-se alguém com os nomes próprios de Milton é justo se se conhece o que exprimem, absurdo se se ignora, não havendo mais que um sono de entendimento, de que as palavras são o torpor.

            E então, o que acharam? É bom observar que estes trechos além de evidenciar as peculiaridades do pensamento de cada heterônimo (e, por consequência, a profundidade da inteligência de Pessoa), nos dão o que pensar também a respeito da gênese da poesia e das teorias literárias.
Bibliografia consultada:
PESSOA, F. Caracterização individual dos heterônimos. In: Obras em Prosa. 1° Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.


Grande abraço e até mais!
Thayna

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