Oi,
gente!!!
Um dos poemas mais
intrigantes, reflexivos, críticos da realidade, e, ( por que não?) belos de
Álvaro de Campos é Tabacaria. Para
entendê-lo por completo seriam necessárias inúmeras e profundíssimas análises,
e este não é nosso objetivo aqui. No entanto, para começar a vislumbrar os
significados imanentes neste poema, eis aqui um texto que o próprio poeta
nomeou Esboço para Tabacaria. Após a
leitura do texto, faremos a leitura do poema (que será dividido em três post,
dada a sua extensão).
Deleitem-se com esta
obra prima!!!
O homem
bobo da sua inspiração, sombra chinesa da sua ânsia inútil, segue, revoltado e
ignóbil, servo das mesmas leis químicas, no rodar imperturbável da Terra,
implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperança, sem sossego [?],
sem outro conforto que o abafo das ilusões da realidade e a realidade das suas
ilusões. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si memórias
de batalhas, versos, estátuas e edifícios. A Terra esfriará sem que isso valha.
Estranho a isso, estranho [?] desde a nascença, o sol um dia, se alumiou,
deixará de alumiar; se deu vida, dará a si a morte. Outros sistemas de astros e
de satélites darão porventura novas humanidades; outras espécies de eternidades
fingidas alimentarão almas de outra espécie; outras crenças passarão em
corredores longínquos da realidade múltipla. [...]
Só um, a
obediência passiva, sem revolta nem sorrisos, tão escrava quanto a revolta
[...], é o sistema espiritual adequado à exterioridade absoluta da nossa vida
serva.
TABACARIA
(parte I)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos
milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por
gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e nos cabelos brancos dos
homens,
Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de
um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre
a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é um sonho, como coisa real por dentro.
[...]
Referências:
PESSOA, F. Caracterização
individual dos heterônimos. In: Obras
em Prosa. 1° Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.
PESSOA, Fernando. Poesia Completa de Álvaro de Campos. 2º Ed. São Paulo, Schwarcz,
2002.
Pessoal, espero que tenham gostado!!! Não percam a
continuação do poema nos próximos posts!!
Abs, Thayna.

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