domingo, 15 de abril de 2012

Ricardo Reis: o sopro clássico



            Olá, pessoal!
Hoje o heterônimo a ser analisado é Ricardo Reis. Representado a faceta clássica da obra pessoana Ricardo Reis tem como características fundamentais a racionalidade, equilíbrio, convencionalismo, fuga e controle de emoções intensas, busca da perfeição e simplicidade das coisas e o paganismo (mitologia greco-latina).
Segundo sua biografia, Reis foi educado em colégio jesuítico, é amante da cultura clássica e reside no Brasil.
Traço marcante de sua obra é consciência da inevitabilidade da morte e da passagem do tempo, devendo-se assim aproveitar os prazeres da vida, mas com racionalidade. Vejamos algumas destas características em alguns de seus poemas:



Só o ter as flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exatos
            Basta para podermos
            Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, para que não nos tome
            Do pulso, e nos arraste.
            E vivamos assim,

Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
            Translúcidos como água
            Em taças detalhadas.

Da vida pálida levamos apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
            E as rápidas carícias
            Dos instantes volúveis

Pouco tão pesará nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
            Escolhermos do que fomos
            O melhor para lembrar

Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
            E cada vez mais sombras,
            Ao encontro fatal

Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
            E o regaço insaciável
            Da pátria de Plutão.


Tudo o que cessa é morte, e a morte é nossa
Se é para nós que cessa. Aquele arbusto
            Fenece, e vai com ele
            Parte da minha vida
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
            Nem distingue a memória
            Do que vi do que fui.

A cada qual, como a statura, e dada
            A justiça: uns fez altos
            O fado, outros felizes.
Nada é prêmio: sucede o que acontece.
            Nada, Lídia, devemos
            Ao fado, senão tê-lo.







Vejamos agora um interessante texto que sintetiza as características fundamentais de Ricardo Reis:


O Epicurismo triste de R. Reis

Resume-se num epicurismo triste toda a filosofia da obra de Ricardo Reis. Tentaremos sintetizá-la.
Cada qual de nós – opina o Poeta – deve viver a sua própria vida, isolando-se dos outros e procurando apenas, dentro de uma sobriedade individualista, o que lhe agrada e lhe apraz. Não deve procurar os prazeres violentos, e não deve fugir às sensações dolorosas que não sejam extremas.
Buscando o mínimo de dor ou [...], o homem deve procurar sobretudo a calma, a tran- quilidade, abstendo-se do esforço e da atividade útil.
[...] Devemos buscar dar-nos a ilusão da calma, da liberdade e da felicidade, cousas inatingíveis porque, quanto à liberdade, os próprios deuses – sobre que pesa o Fado – a não têm; quanto à felicidade, não a pode ter quem está exilado de sua fé e do meio onde a sua alma devia viver; e quanto à calma, quem vive na angústia complexa de hoje, quem vive sempre à espera da morte, dificilmente pode fingir-se calmo. A obra de Ricardo Reis, profundamente triste, é um esforço lúcido e disciplinado para obter uma calma qualquer. [...]
FREDERICO REIS

A partir deste excerto pode-se reforçar características já citadas e depreender outras como a indiferença à vida social.
É importante guardar todas estas características pois servirão de base para as leituras e reflexões posteriores.

Bibliografia consultada:
CEREJA, W. R. & MAGALHÃES, T. C. A literatura Portuguesa do século XX. In: Português: Linguagens. 7º Ed. São Paulo: Saraiva, 2010.

PESSOA, F. Caracterização individual dos heterônimos. In: Obras em Prosa. 1° Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974.


Abs, e até a próxima!
Thayna




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