sexta-feira, 6 de abril de 2012


Fernando Pessoa: o caleidoscópio poético
            Olá, pessoal!



 Hoje trouxemos alguns textos reflexivos - e explicativos - que aborda o processo de heteronímia em Fernando Pessoa: 

Heteronímia: máscara e essência

            Fernando Pessoa não foi apenas um criador de obras literárias, mas também um criador de escritores. Em outras palavras, o seu projeto de arte era tão vasto e sua inteligência, imaginação e capacidade criadora tão amplas, que não lhe bastava criar uma única obra, mesmo que contivesse vários volumes e títulos. Por isso, por meio da imaginação, concebeu várias entidades poéticas, com biografia, traços físicos, profissão, ideologia e estilo próprios.
            Ao todo, foram mais de setenta os heterônimos desenvolvidos, semi-desenvolvidos ou apenas esboçados. Entre eles destacam-se os três perfeitos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. [...]
            As razões que teriam levado Fernando Pessoa a esse projeto de arte tão grandioso e ousado têm sido objeto de estudo há décadas e provavelmente ainda deverão ser por muitos anos. A própria obra – riquíssima em reflexões filosóficas – contém inúmeras respostas, que, embora não satisfaçam a todas as perguntas, pelo menos oferecem pistas.

CEREJA, W. R. & MAGALHÃES, T. C. O Modernismo em Portugal. In: Português: Linguagens. 1º Ed. São Paulo: Atual, 2003.


[...] É preciso compreender que o poeta não só assimilou o passado lírico de seu povo como também refletiu em si, à semelhança dum poderoso espelho parabólico, as grandes inquietações humanas no primeiro quartel deste século. Com suas sensíveis antenas, captou as várias ondas que traziam de pontos dispersos a certeza de que a Humanidade vivia uma profunda crise de cultura e valores. [...]
            Por outras palavras: descrendo, pela análise e a priori, num Absoluto em si, mas considerando-o indispensável para explicar o caos cósmico e conferir-lhe a ordem perdida pela especulação racionalista, - o poeta parte do relativo (ou Relativo) para o absoluto (ou Absoluto). Tudo se passa como se ele, fenomenologicamente colocado diante do mundo, tentasse reconstruí-lo ou ordená-lo partindo do nada, recebendo como se fosse pela primeira vez os impactos mil vezes sofridos pelos homens no curso da História e sentindo-os como descoberta “pura”, isenta das anteriores deformações intelectuais. Tal processo pressupõe, necessariamente, a multiplicação do poeta em quantas criaturas compuseram e compõem a Humanidade na sequência dos séculos: apenas desse modo, somando as múltiplas e relativas visões de toda a espécie humana no tempo e no espaço, e de cada homem ao longo de sua vida particular, seria possível alcançar uma imagem aproximada do Universo como um todo, e tentar reconquistá-la ao caos das relatividades. O fulcro, portanto, da mundividência pessoana é constituído por um esforço no sentido de conhecer o Universo, como um absoluto passível e para além da contingência individual. Em suma, era preciso ser todos que existiram, existem e existirão, aprender a sentir como eles, ser um eu-cidade, um eu-Humanidade, “uma série de contas-entes ligados por um fio-memória”, ou, como afirma pela voz de Álvaro de Campos: “Multipliquei-me, para me sentir/ Para me sentir, precisei sentir tudo,/ Transbordei-me, não fiz senão extravasar-me.” Só assim lhe seria possível alcançar uma medida menos provisória e menos contingente.[...]
            Ora, - e aqui está o ponto a que se pretende chegar - , é desse múltiplo e desintegrante desdobramento de personalidade que nascem os “heterônimos” de Fernando Pessoa. Nada tendo a ver com “pseudônimos”, querem referir a existência de outros nomes, isto é, outros poetas, com identidade, “vida” e sentido autônomos vivendo dentro do poeta, de forma que este se torna um e vários ao mesmo tempo.
MOISÉS, Massaud. Modernismo. In: A literatura Portuguesa. São Paulo: Cultrix, 2006.

Vejamos agora como o próprio poeta define este processo numa crata que escreveu ao poeta e crítico Casais Monteiro:

[...] Vou entrar na gênese dos meus heterônimos literários, que é afinal o que V. quer saber. [...]
            Aí por 1912, salvo erro [...] veio-me à idéia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular [...] e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, uma penumbra mal urdida, um vago retrato de pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
            Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico [...]. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de março de 1914 – acerquei-me de uma cômoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título – “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente, peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Aberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
            Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
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            Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber o sequer calcular o que iria escrever. Ricardo Reis depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza numa ode. Campos quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. [...]
Fernando Pessoa. Obra Poética. Apud. CEREJA, W. R. & MAGALHÃES, T. C. A literatura Portuguesa do século XX. In: Português: Linguagens. 7º Ed. São Paulo: Saraiva, 2010.



Ainda nesta mesma carta Pessoa diz:


Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. [...] Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens [...].
CEREJA, W. R. & MAGALHÃES, T. C. A literatura Portuguesa do século XX. In: Português: Linguagens. 7º Ed. São Paulo: Saraiva, 2010.


Como pudemos perceber após todas estas reflexões os “heterônimos” são complexos, intrincados, quase vivos e refletem um projeto de arte e vida de um dos maiores poetas de todos os tempos!


Até a próxima!!

Um comentário:

  1. Pessoal, ê importante prestar atençáo nas caracteristicas de cada um dos heteronimos que já podemos apreender nos textos acima! Abs.

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